NÃO TEM TRADUÇÃO (Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva)
O cinema falado é o grande culpado da transformação Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez Lá no morro, se eu fizer uma falseta A Risoleta desiste logo do francês e do Inglês A gíria que o nosso morro criou Bem cedo a cidade aceitou e usou Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote Na gafieira dançar o Foxtrote Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês Tudo aquilo que o malandro pronuncia Com voz macia é brasileiro, já passou de português Amor lá no morro é amor pra chuchu As rimas do samba não são I love you E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny Só pode ser conversa de telefone A música popular brasileira, autêntica manifestação cultural de nossa gente, reflete, em suas letras, situações do cotidiano e não raro, na sua simplicidade, revela o chamado "saber do povo". Na composição acima, da década de 30, seus autores formulam observações que os estudos linguísticos consagram como verdadeiras. A propósito, fazem-se, a seguir, quatro afirmações: I. O texto chama a atenção, em determinado momento, para a transferência entre variantes sociais da língua. II. O texto ratifica a concepção da linguagem como um fenômeno dinâmico, mutável no tempo e no espaço. III. O texto afirma a existência de uma língua brasileira, que nada tem a ver com suas origens portuguesas. IV. O texto admite a existência de um modo de falar brasileiro, que se diferencia do português original. Analisando-se tais afirmativas, conclui-se que:
Texto I "As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram;"("Os Lusíadas", Canto I (fragmento) Luís de Camões)
Texto II "Então o bravo povo brasileiro Em perigos e guerras esforçado Mais que prometia a força humana Plantou couve, colheu banana Bravo esforço do povo brasileiro Mandou vir capital lá do estrangeiro" ("O Subdesenvolvido", fragmento, Carlos Lyra e Francisco de Assis)
"Os Lusíadas", sabemos, constituem uma epopeia que narra os feitos heroicos de Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para as Índias. Já "O Subdesenvolvido" é uma canção dos anos 60, elaborada dentro da linha temática do Centro Popular de Cultura da UNE, que, de forma engraçada, irônica, crítica, pretende "recontar" a história de nosso país. A presença, no texto II (de "O Subdesenvolvido"), de versos que compuseram o texto I (de "Os Lusíadas") configura - examinados os dois contextos - um procedimento denominado:
RETROLÂMPAGO (Fragmento)
A Manhã ainda nua saiu da montanha com a coroa de plumas vermelhas à cabeça. Depois, por sua vez, é o Dia português que salta das ondas qual pássaro branco ruflando a asa enorme das velas redondas... Por último é a Noite africana que chega no porão do navio, tremendo de frio, com os seus orixás, com os seus amuletos, e é trazida pra terra nos ombros dos pretos. E os heróis, ainda obscuros, nascidos na Terra: o gigante tostado pelo sol da Manhã; o gigante marcado com o fogo do Dia; e o gigante criado com o leite da Noite, todos três calçam as botas sete-léguas e era uma vez...(Cassiano Ricardo, Martim-Cererê)
Monumento às Três Raças, Goiânia/GO. Criação: Neusa Moraes / 1968
O poema trata da formação étnica do nosso país e, em sua construção, o autor se utiliza da linguagem figurada. Presente o sentido maior que se confere à metonímia, identificamos, no texto, como metonímicas e representativas das três raças mencionadas as palavras:
plumas, velas, amuletos.
montanha, pássaro, orixás.
coroa, asa, porão.
cabeça, asa, frio.
manhã, ondas, ombros.
Leia o texto a seguir, pequeno fragmento de um longo artigo intitulado "Linguagens - As tecnologias de comunicação e informação na escola", de autoria de Tania Maria Esperon Porto, da Universidade Federal de Pelotas: "Ao contrário do homem da era de Gutenberg, treinado para a racionalização e a distância afetiva, o homem da civilização técnico-eletrônica e audiovisual, no entender de Babin e Kouloumdjian (1989), conecta intimamente a sensação à compreensão, a coloração imaginária ao conceito. Sem afetividade não há audiovisual. Esta nova linguagem tecnológica, que interconecta e aproxima os indivíduos, também treina múltiplas atitudes perceptivas e solicita constantemente a imaginação, investindo na afetividade e nas relações como mediação primordial no mundo. São possibilidades de linguagens tecnológicas que podem incorporar-se à escola para ensinar o respeito ao diferente, a vencer obstáculos, a trabalhar coletivamente, entre outros aspectos. Não pressupõe uma didática nova, mas uma postura que se apoia na inter-relação entre professor e alunos como sujeitos que se organizam, decidem e buscam superar obstáculos, tendo em vista os conteúdos curriculares, intermediados com as tecnologias e situações da cotidianidade." Deste mesmo artigo, destacamos outros trechos. Marque o único cujo teor mais se aproxima da ideia contida no referido fragmento:
"O mercado audiovisual e tecnológico cria a ilusão de a todos servir, embora muitos se contentem apenas com o fast-food televisivo e com a esperança de um dia poder acessar todos os bens."
"...distante de práticas unilaterais, a comunicação na escola envolve um agir pedagógico participativo, segundo o qual professores e alunos, estando em movimento, ampliam seus saberes, interações e formas de comunicação com tecnologias propiciadoras de aprendizagens."
"Diante dessas linguagens, a grande maioria dos docentes (ou mesmo pais) se vê apenas como usuário/ telespectador. A preparação social e/ou pedagógica para seu uso não é, na maioria das vezes, cogitada."
"As novas (e velhas) tecnologias podem servir tanto para inovar como para reforçar comportamentos e modelos comunicativos de ensino. A simples utilização de um ou outro equipamento não pressupõe um trabalho educativo ou pedagógico."
"As tecnologias invadem os espaços de relações, mediatizando estas e criando ilusão de uma sociedade de iguais, segundo um realismo presente nos meios tecnológicos e de comunicação."
MONTANHAS DE OURO PRETO
Desdobram-se as montanhas de Ouro Preto Na perfurada luz, em plano austero. Montes contempladores, circunscritos, Entre cinza e castanho, o olhar domado Recolhe vosso espectro permanente. Por igual pascentais a luz difusa Que se reajusta ao corpo das igrejas, E volve o pensamento à descoberta De uma luta antiqüíssima com o caos, De uma reinvenção dos elementos Pela força de um culto ora perdido, Relíquias de dureza e de doutrina, Rude apetite dessa cousa eterna Retida na estrutura de Ouro Preto.(Murilo Mendes)
O poema em destaque está na obra "Contemplação de Ouro Preto" (1954), que, segundo Alfredo Bosi, é "o ponto mais alto da carreira literária de Murilo Mendes", e na qual se nota forte presença de elementos do Barroco, como, por exemplo, as antíteses e uma atmosfera carregada de conflitos entre os valores terreno e espiritual. Identifique, dentre as cinco alternativas abaixo, aquela que exemplifica, no campo das artes plásticas, a estética barroca:
O eu lírico dirige-se à interlocutora Anarda, a quem pretende convencer de sua tese, de que os poetas vivem de coisas abstratas, como ar, perfumes, ambrosia.
Ele se vale do recurso da pergunta (primeira estrofe) para, em seguida, na segunda estrofe, reproduzir a resposta da interlocutora, com a qual concorda.
Na terceira estrofe, o poeta, a partir de um hipotético discurso formulado por aqueles a quem critica, procura desqualificá-los.
O último verso apresenta um tipo de julgamento que, na realidade, exemplifica o contrário do que vem sendo afirmado pelo poeta.
As palavras "ar" e "beijo" representam, no poema, exemplos de vocábulos aplicáveis a um mesmo posicionamento.
Texto I CANÇÃO DO EXÍLIO
Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.(GONÇALVES DIAS, Antônio. Poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro, Aguilar, 1959. p. 277.)
Texto II CANÇÃO DO EXÍLIO
Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturamos de Veneza. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista, os sargentos do exército são monistas, cubistas, os filósofos são polacos vendendo a prestações. A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos. Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda. Eu morro sufocado em terra estrangeira. Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade e ouvir um sabiá com certidão de idade!(MENDES, Murilo., Poesias. Rio de Janeiro, José Olympio, 1959. p. 224.)
Fazendo-se a leitura atenta dos textos I e II, nota-se que o autor do texto II tanto atualiza certos valores do texto I, quanto conserva outros. Assim, podemos perceber valores comuns aos dois por meio dos versos da seguinte opção:
passou a ser bem pequena, agora, a utilização, pela Rússia, do modal rodoviário, se comparada com o Brasil e os Estados Unidos.
os Estados Unidos continuam apresentando maior utilização do modal rodoviário em relação ao ferroviário.
o Brasil, ainda que timidamente, apresenta um crescimento na utilização do modal ferroviário.
não há discrepâncias quanto à utilização, nos dois momentos, por parte do Brasil, Estados Unidos e Rússia, do modal hidroviário.
o Brasil tende, nos próximos anos, a superar os Estados Unidos e a Rússia, no tocante ao uso do modal ferroviário.
Texto I NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. (Carlos Drummond de Andrade)
Texto II NEL MEZZO DEL CAMIN
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada E triste, e triste e fatigado eu vinha. Tinhas a alma de sonhos povoada, E a alma de sonhos povoada eu tinha... E paramos de súbito na estrada Da vida: longos anos, presa à minha A tua mão, a vista deslumbrada Tive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo... Na partida Nem o pranto os teus olhos umedece, Nem te comove a dor da despedida. E eu, solitário, volto a face, e tremo, Vendo o teu vulto que desaparece Na extrema curva do caminho extremo.(Olavo Bilac)
É comum o "diálogo" de textos na nossa literatura. É possível imaginar-se, por exemplo, que Drummond, na construção do seu poema (texto I), tenha tomado como referência o de Bilac (texto II). Isso teria acontecido não apenas na "tradução" do título, mas também em outra manifestação de imitação formal do fazer poético de Bilac, configurando-se a hipótese de uma "paródia da forma", que consistiria: