Rio de janeiro, 18 de janeiro de 2018

Educação Híbrida: o futuro para a aprendizagem

Por Andréa Antunes

 O termo híbrido, que se refere a elementos com diferentes composições, está sendo inserido na Educação. Para alguns especialistas, é exatamente pela mistura que passa o caminho do aprendizado. É o que alguns estão chamando de Educação Híbrida: um modelo que mistura diferentes formas de ensinar e aprender. Um dos que defendem a ideia é o espanhol, naturalizado brasileiro, José Moran. 

Professor (aposentado) de Novas Tecnologias na USP, cofundador do Projeto Escola do Futuro da universidade e coordenador de alguns programas de educação semipresencial e a distância, Moran acredita que é preciso combinar as diversas maneiras de ensino e aprendizagem. “Aprendemos melhor quando combinamos três processos de forma equilibrada”, diz ele, que é formado em Filosofia e doutor em Comunicação pela USP. 

Dentro dessa linha, Moran acredita que é preciso flexibilizar currículos, criar modelos pedagógicos menos engessados e mais livres. “Trabalhar com projetos deve ser uma política educacional prioritária. Aprendemos muito mais praticando e refletindo do que só explicando”, afirma.  Moran esclarece ainda que nesse novo modelo o professor precisa focar menos nas informações e mais nas habilidades e desafios dos alunos. De passagem pelo Rio de Janeiro, onde participou do 10º Congresso Rio de Educação, Moran deu a seguinte entrevista:

Recentemente, o Senhor publicou o artigo “Aprender e ensinar com foco na Educação Híbrida”. O que seria a Educação Híbrida?
A Educação Híbrida destaca que existem diferentes formas de ensinar e de aprender, que podem ser integradas e combinadas. Podemos combinar tempos e espaços individuais e grupais, presenciais e digitais, com maior ou menor supervisão. Aprendemos melhor quando combinamos três processos de forma equilibrada: a aprendizagem individual: cada um pode aprender o básico por si mesmo (aprendizagem prévia, aula invertida), com pouca interferência direta do professor;  aprendemos mais uns com os outros (aprendizagem entre pares, através de diferentes atividades, grupos, redes); e a aprendizagem mediada por pessoas mais experientes (professores, orientadores, mentores). Uma das formas de misturar esses três processos é através da aula invertida: O básico o aluno estuda antes ou no seu ritmo. As atividades de grupo e de aprofundamento podem ser feitas depois para ir além do que conseguimos isoladamente. O híbrido acrescenta também a integração entre os momentos e atividades presenciais e os digitais. 

O que seria uma aula invertida?
Aula invertida significa basicamente que o aluno estuda antes os materiais básicos e os aprofunda depois em classe com a orientação do professor e a colaboração dos colegas. Pode ser feita de várias formas.

O desenvolvimento da tecnologia mudou o mundo, mas na Educação, ainda estamos no século XIX. Estamos atrasados no uso das tecnologias no processo Educacional?   O que pode ser feito para resolver essa questão? 
Podemos aprender com os que estão fazendo de forma diferente. Há muitos grupos propondo currículos mais flexíveis, mais personalizados; há gestores corajosos e professores que mudam suas práticas. Mostrar as experiências bem-sucedidas é um incentivo para os que estão indecisos, que são muitos. Os bons exemplos estimulam, motivam, mostram caminhos. As mudanças são progressivas, e sem volta, mesmo que demorem muito para se tornarem majoritárias.

O Senhor também defende uma Educação Humanista. O que seria isso na sua visão?
Educação é o caminho principal para sermos mais conscientes, abertos, afetivos e realizados. Humanizar é favorecer o encontro, o compartilhamento, a convivência profunda. Aprendemos mais quando nos encontramos, escutamos de verdade e compartilhamos nossas vidas.

As escolas de Ensino Básico devem trabalhar com aulas digitais? Por quê?
Devem trabalhar com aulas com materiais e atividades físicos, analógicos, do dia a dia e também os digitais, sempre de forma dinâmica e integrada. No cotidiano vivenciamos essa mistura em todos os momentos. O celular é nossa ponte com o mundo digital. Competências digitais hoje são importantes para compreender o mundo e interagir nele. É importante fazer essa integração de forma equilibrada o tempo todo. A aula não é só o que acontece no espaço de uma sala, é um contato vivo com o mundo dentro e fora da sala de aula e as mídias digitais são importantes nesta ampliação de possibilidades de aprender sozinhos e em grupo, vendo, ouvindo, produzindo (novas histórias), divulgando, compartilhando. 

Os professores estão preparados para lidar com essa nova realidade? Qual o papel do professor na Educação Híbrida?
Muitos ainda não estão preparados. Têm medo de mudar, de experimentar, de sair da trilha conhecida. Mas não vale a pena insistir no modelo tradicional. O professor precisa focar menos informações e mais habilidades, desafios, aprender fazendo. Seu papel é mais de orientar, incentivar, problematizar do que informar. Ele está a maior parte do tempo ao lado dos alunos, circulando entre eles, não na frente, explicando tudo.

Como motivar o professor a participar de novos projetos?
Começando por projetos ligados à vida, a questões importantes, envolvendo-o em projetos socialmente relevantes e que podem melhorar a vida de pessoas perto dele, na comunidade. Também é importante mostrar o exemplo de outros professores que se realizam mais através de desafios concretos.  Há professores que não querem ou conseguem mudar, mas muitos outros se animam quando encontram apoio de colegas e diretores. Trabalhar com projetos deve ser uma política educacional prioritária. Aprendemos muito mais praticando e refletindo do que só explicando. 

Muito se fala sobre a crise do Ensino Médio. Quais os maiores problemas desse segmento? O que deve ser mudado?
O ensino médio precisa ter menos matérias e mais integração de áreas; focar mais aprender a partir de atividades, desafios, jogos significativos, onde o conteúdo é trabalhado nesses contextos práticos. Também é importante que os alunos desenvolvam seu projeto de futuro (profissional, pessoal), de vida, que desenvolvam as competências cognitivo-sócio-emocionais de forma consistente com orientação de mentores qualificados. Os alunos precisam entrar mais em contato com experiências sociais reais, sair mais da escola, entrar em contato com realidades diferentes e desenvolver atividades próximas aos seus interesses.  

Como o Senhor acredita que será a escola do futuro?
As escolas mais inovadoras apontam o futuro. Desenvolvem modelos pedagógicos mais integrados, sem disciplinas rígidas. Organizam o projeto pedagógico a partir de valores, competências amplas, problemas, projetos, equilibrando a aprendizagem individualizada com a colaborativa; redesenham os espaços físicos e os combinam com os virtuais com apoio de tecnologias digitais. As atividades são muito diversificadas, com metodologias mais ativas, que combinam o melhor do percurso individual e grupal. As tecnologias móveis e em rede permitem conectar todos os espaços e elaborar políticas diferenciadas de organização de processos de ensino e aprendizagem adaptados a cada situação, aos que são mais proativos e aos mais passivos; aos muito rápidos e aos mais lentos; aos que precisam de muita tutoria e acompanhamento e aos que sabem aprender sozinhos. Conviveremos nos próximos anos com modelos ativos não disciplinares e disciplinares com graus diferentes de “misturas”, de flexibilização, de “hibridização”.

Voltar

© Direitos Reservados - Sindicato dos Estabelecimentos de Educação Básica do Município do Rio de Janeiro
Rua da Assembleia, 77, 22º andar - Centro - Rio de Janeiro - Cep 20011-001 – Tel:. (21) 2242-0570

Tecnologia: Sistema de Edição Online - Powered by Plataforma Digital - Colégio 24 Horas

design