Rio de janeiro, 15 de dezembro de 2017

Gestão e Propósito

Amaro França 

Perguntas como “Quem somos?”, “De onde viemos?”, “Para onde vamos?”, “Qual o sentido da vida?” e outras de cunho existencial costumam integrar a história das pessoas, permeando suas crenças, valores, relações e até mesmo o desenvolvimento de suas atividades profissionais. Provavelmente, são perguntas da essência do ser humano, que, em geral, se fortalecem a partir das realidades e experiências de cada um ao longo da vida.

Evidentemente, em alguns momentos históricos ou de conflitos sociais que marcam determinadas épocas, as perguntas existenciais eclodem com maior relevância; em outros momentos são esquecidas, sufocadas por afazeres que se multiplicam na busca de produtividade e de resultados diversos, “desfocando” as pessoas daquilo que as move, dos seus propósitos, do que elas são e do que realizam, e gerando uma certa “alienação”.

Atualmente, nas relações do mundo do trabalho, perguntas existenciais vêm ganhando relevância sobretudo em meio aos líderes executivos. Como tônica central está a questão do propósito – ou seja, do sentido daquilo que se realiza enquanto profissional. “O que faço tem propósito? Tem sentido? Faz-me sentir realizado?”

Refletir sobre os pressupostos do trabalho com propósito, com sentido, remete-nos a pensar sobre a finalidade do que fazemos e, ao mesmo tempo, a reconhecer-nos naquilo que produzimos. O filósofo e escritor Mario Sergio Cortella, em sua obra Por que fazemos o que fazemos? (2016), instiga-nos a pensar sobre o valor do trabalho e seu propósito: “O propósito original do trabalho é que não nos deixemos morrer. Afinal de contas, somos seres de carência, de necessidade. Ou construímos o nosso mundo ou não há como existir.”

Num tempo marcado por

relações de trabalho do tipo “cada vez mais, cada vez maior, cada vez mais rápido” – chavões de um mercado frenético –, permeadas pelo uso exacerbado das novas tecnologias e modelos de produção que levam muitas vezes à exaustão, é pertinente refletir e colocar em xeque a “laborlatria” – neologismo que expressa o conceito de extrema valorização do trabalho, “adoração” ao trabalho, refletido em algumas práticas atuais de workaholics (viciados em trabalho).

 Caso contrário, podemos tornar-nos autômatos, tendo como consequência a alienação daquilo que executamos enquanto profissionais.

Com certeza, desempenhar o trabalho de modo automatizado apaga a dimensão de realização de cada pessoa. No dizer de Cortella (2016): “Nessa hora, eu me desumanizo, isto é, me aproximo do mundo das máquinas... No trabalho alienado, desumanizado, não existe a percepção autoral.”

Viver experiências, ver-se representado na obra que se faz e naquilo que se realiza enquanto profissional, é necessário. “Esse movimento de experimentar a mim mesmo significa que o propósito da minha vida é ter consciência de que não sou descartável. Se não sou descartável, eu me experimento naquilo que faço. E, dessa forma, preciso ter reconhecimento de autoria” (CORTELLA, 2016).

Muito provavelmente, um dos fatores que têm contribuído para não se perceber, sentir e ser reconhecido em sua dimensão autoral está ligado à rapidez com que tudo acontece ou, por que não dizer,

à “horizontalidade imediatista” das relações que se travam no cotidiano.

Nessa dinâmica relacional, está se perdendo a essência do rito, elemento constitutivo presente na história humana, na identidade do ser pessoa e do ser profissional. Afinal, somos seres que seguimos ritos e ritmos. “Nós somos seres cíclicos (...),

os ciclos são a grande marcação para a nossa vida não ser caótica, especialmente os da natureza” (CORTELLA, 2016).

Resgatar e respeitar alguns ritmos, ritos, “protocolos”, com seus elementos simbólicos e de significados, construídos nas relações pessoais e organizacionais, poderá ser um caminho assertivo na constituição do exercício da função e do cargo de liderança nos espaços de convivência.

Sob essa ótica, cada pessoa é e desempenha papel significativo, independentemente da função exercida na organização que integra. Afinal, “as empresas são as pessoas que nelas atuam. Boas pessoas, em geral, constituem boas empresas. E essas pessoas buscam permanentemente respostas que justifiquem suas ações e razões” (ALMEIDA, 2008). Em outras palavras, elas buscam os porquês do seu fazer, o seu verdadeiro propósito, pois é “precisamente no seu trabalho que sua alma se revela” (GRÜN, 2014).  

Amaro França é diretor do Colégio Sagrado Coração de Maria

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