ESCOLAS PÚBLICAS E PRIVADAS CRIAM PROJETOS CONTRA MACHISMO E MISOGINIA

Diante da explosão de conteúdos misóginos nas redes sociais e da repercussão de notícias de feminicídio e de estupros coletivos no país, as escolas estão dando espaço para projetos de combate ao machismo e à misoginia. As iniciativas muitas vezes têm partido de grupos de alunas, que procuram professores e gestores para relatar incômodo com o que vivem e presenciam dentro e fora da escola.

No ano passado, a repercussão da série britânica Adolescência (2025, Netflix), que mostra como a cultura misógina das redes sociais levou um aluno a assassinar uma colega, ajudou a alavancar o debate nas escolas ano passado. Outras obra da plataforma, deste ano, joga luz nessa temática, o documentário “Por Dentro da Machosfera”.

No Brasil, entre os casos recentes mais chocantes foi o estupro coletivo de uma estudante de 17 anos em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, no fim de janeiro. Os envolvidos são um ex-namorado, da mesma idade, e quatro jovens de 18 e 19 anos. Dois dos acusados estudavam no tradicional Colégio Pedro 2º, que após protestos de alunos anunciou a criação de uma política institucional de prevenção e enfrentamento a casos de assédio. A instituição é federal.

Misoginia e machismo são combustíveis do cyberbullying, com meninas sendo as principais vítimas em apps de mensagens e perfis de fofocas, os "explanas". Em março deste ano, veio à tona um caso de suspensão de alunos do Colégio São Domingos, em Perdizes (zona oeste de São Paulo), em razão de mensagens misóginas em grupos de WhatsApp do 9º ano.

Meninos de 14 e 15 anos fizeram um "ranking" meninas, falando de atributos físicos ("peito" e "bunda"). Postaram figurinhas com foto de Jeffrey Epstein, conhecido por criar uma rede de abuso sexual de menores nos EUA, e uma imagem de um mangá com a frase "Vou te estuprar" –a partir daí, circulou a informação de que havia uma lista de "estupráveis", o que foi negado pela escola e pelos pais dos envolvidos. Não é algo raro. Casos semelhantes estão no cotidiano de escolas privadas e públicas, das vulneráveis às abastadas, das conservadoras às progressistas.

O pai de um dos alunos suspensos do São Domingos conta que foi pego de surpresa, porque a família é extremamente crítica à misoginia. Diz que determinou que filho escrevesse uma carta de desculpas às colegas, à mãe e à avó, fez uma devassa nas atividades digitais do menino e bloqueou seu acesso às redes sociais e ao WhatsApp. Também o colocou para fazer terapia.

Em nota, o diretor pedagógico do colégio, Luís Fernando Weffort, afirmou que a escola realizou uma série de encontros com os estudantes envolvidos, seus familiares e turmas de outras séries. Foi instituído um grupo de trabalho, com professores, psicóloga e advogada, para indicar as "medidas institucionais e restaurativas cabíveis".

Amigas, não rivais

No colégio Bandeirantes, de São Paulo, a discussão sobre misoginia e machismo se amplificou nos currículos e nos coletivos de alunos, segundo Beatriz Kohlbach, coordenadora de Convivência Positiva e Apoio Emocional. "É um tema trazido pela CCA [Comunidade de Cuidado e Apoio, formada por alunos] e por coletivos como o Bandiversidade [apoio à comunidade negra e LGBTQIA+] e o Girl UP [ligado a um movimento internacional de meninas]."

Em março, foi realizada a Girl Night, noite das meninas, com a temática "Somos amigas, não rivais". Aluna do 3º ano do ensino médio e integrante do Girl UP, Laura, 16, diz que a força do coletivo é a troca entre as próprias alunas.

"Uma menina pode se sentir desconfortável de conversar com um adulto sobre determinadas questões", diz. "Compartilhamos situações de machismo que observamos e enfrentamos dentro e fora da escola, fazemos debates sobre educação menstrual, mulheres nos esportes, na ciência, no ambiente de trabalho, e violência contra a mulher. Também já fizemos artes marciais para autodefesa."

(Fonte: Folha de São Paulo)



 Voltar
Boletim Diretor - Colégio 24 Horas