"CONTINÊNCIA" E "HINO": A ESTREIA DAS ESCOLAS CÍVICO-MILITARES EM SÃO PAULO

Com regras rígidas sobre aparência e Hino Nacional obrigatório, São Paulo deu início na segunda-feira à implantação de escolas no modelo cívico-militar. Ao todo, cem unidades distribuídas em 89 municípios passaram a funcionar nesse modelo no estado. Promessa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a sistemática era uma demanda da ala bolsonarista e criou percalços ao chefe do Executivo paulista até sair do papel.

O projeto foi questionado no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), que chegou a suspender a implementação da política, e pelo Tribunal de Contas do estado de São Paulo (TCE-SP), que barrou o processo seletivo para a contratação de monitores do programa. A queda de braço atrasou os planos do governador, que pretendia colocar o modelo em funcionamento ainda em 2025. Superadas as questões judiciais, no início deste ano letivo, cerca de 53 mil alunos se prepararam para o primeiro dia de aula. Além da proibição do uso de bonés, piercings e roupas curtas, a principal reclamação dos estudantes diz respeito ao cabelo.

Pelas normas, penteados masculinos devem evitar desenhos, letras, símbolos, pinturas coloridas ou cortes do tipo moicano. Riscos nas sobrancelhas também são vetados. Para as meninas, o uso de coque, tranças ou rabo de cavalo é recomendado, assim como tons considerados “discretos” em caso de coloração artificial. Alunos da Escola Estadual Professor Lourenço Filho, no Planalto Paulista, na zona sul da capital, mostraram-se divididos. Na segunda, o clima envolveu algumas reclamações e adaptações, inclusive sobre infraestrutura. A caixa de som usada para tocar o Hino Nacional, por exemplo, apresentou falhas no áudio, o que virou motivo de risadas entre os estudantes.

À CBN, Sofia e Melissa, do 9º ano, questionaram algumas exigências. “A gente sempre pôde usar o que quisesse, usar o cabelo do jeito que quisesse, e por isso estamos desconfortáveis”, disse Melissa, enquanto Sofia reclamava da exigência de bater continência para os docentes. Já Laura Eduarda, também do 9º ano, é favorável à iniciativa. Ela acredita que o modelo pode ajudar no rendimento escolar e na preparação para o ensino médio. “Eu acho que é muito bom ter essa disciplina, principalmente para as pessoas mais imprudentes, entre aspas, porque assim elas vão ter uma visão diferente da vida. Eu acho que tem algumas regrinhas que estão um pouco chatas, mas, na minha opinião, tudo é questão de costume”, diz.

Ailton Gonçalves, pai de Davi Roque, de 11 anos, serviu o Exército e disse esperar que a experiência ajude o filho, principalmente no que diz respeito à disciplina. Na véspera do primeiro dia de aula, ele levou o menino para cortar o cabelo e retirar as luzes que havia pintado. Já Ana Beatriz, de 16 anos, natural do Maranhão e recém-chegada a São Paulo, demonstrou insatisfação com a exigência de usar coque diariamente. Ela relatou que colegas com cabelos cacheados também se mostraram contrariados com a possibilidade de cortar as madeixas.

Embora já tenham ocorrido em algumas unidades, medidas como a continência na chegada do professor e a execução regular do Hino Nacional ainda não começaram oficialmente e devem ser implementadas ao longo do ano, após um período de ambientação. A direção da Professor Lourenço Filho afirma que a adesão ao modelo teve ampla aprovação da comunidade. O diretor Ângelo Neto, que atua há 27 anos na educação e está há 15 na gestão da unidade, reforça que a implantação plena será gradual. “A gente tem uma cartilha que iniciou agora e que estará em transformação até abril. Passo a passo, vamos tratar da questão do uniforme e da postura dentro da sala de aula. Por exemplo, quando os professores chegarem, os alunos se levantam e batem continência. Isso leva um tempo para a gente trabalhar com as crianças”, afirma.

Apesar da estreia na segunda, alguns alunos ainda não receberam os uniformes oficiais. A Secretaria estadual de Educação informou que houve atraso no pregão e que o processo de compra segue “em finalização”, com expectativa de entrega a partir da próxima semana. Enquanto isso, os estudantes utilizam camisetas brancas provisórias com a identificação “escola cívico-militar”.

Secretário-executivo de Educação, Vinícius Neiva explica que o problema ocorreu porque empresas fornecedoras não passaram nos testes de qualidade exigidos pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Pelo menos quatro companhias foram reprovadas. Segundo Neiva, a pasta decidiu não aceitar os materiais fora do padrão previsto em edital. Os agasalhos já começaram a ser distribuídos, enquanto as camisetas devem chegar gradualmente nas próximas semanas.

De acordo com a Secretaria estadual de Educação, o currículo das escolas que adotarem o modelo não muda em relação às demais unidades da rede. O programa conta com policiais militares aposentados, contratados pelo governo, mas que não atuarão em sala de aula. Eles serão responsáveis pelo controle da disciplina na entrada, na saída e nos intervalos, além de atuar em “projetos educativos extraclasses” e na busca ativa de estudantes em risco de evasão.

Para Álvaro Sanchez, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestre em educação, as escolas cívico-militares prometem trazer mais disciplina para a rotina, mas o principal desafio é conferir aos militares um “caráter pedagógico” que contribua para a evolução educacional dos alunos. “É importante lembrar que disciplina, respeito e responsabilidade fazem parte da formação cotidiana. Com mais conteúdo nesse sentido, é mais fácil que o aluno se desenvolva melhor em sala de aula. A parceria com os pais é fundamental para fortalecer a relação entre aluno, família e profissionais da educação”, disse.

Segundo o governo estadual, as escolas foram escolhidas com base em critérios como baixo desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e alta incidência de vulnerabilidade social. O investimento nas escolas cívico-militares, ainda conforme o informado pelo Executivo, será o mesmo já previsto para as unidades regulares. O gasto com a contratação dos monitores, considerando as cem escolas no novo modelo, será de R$ 7,2 milhões.

Como mostrou O GLOBO, a implementação do modelo não estava entre as prioridades de Tarcísio de Freitas no início do mandato. A iniciativa ganhou força após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciar, em 2023, o fim do programa nacional de estímulo à política, criado por seu antecessor, Jair Bolsonaro (PL), padrinho eleitoral do governador. Apesar do apoio do governo estadual, foi a ala bolsonarista que mais atuou em favor da implementação do sistema, em alguns momentos entrando em conflito com Tarcísio para acelerar o projeto. O tema chegou à mesa do Palácio dos Bandeirantes, por exemplo, durante as negociações para a aprovação da privatização da Sabesp, no fim de 2023. (*Da CBN)

(Fonte: O Globo)



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