Rede pública perde espaço e ensino privado cresce no interior de SP

O número de matrículas na rede estadual de ensino da RPT (Região do Polo Têxtil) apresentou queda de 24% em 2025 na comparação com o ano anterior, segundo dados do Censo Escolar. O total passou de 108.123 para 82.039 registros. No mesmo período, a rede particular seguiu em trajetória oposta e registrou crescimento de 2,4%, saindo de 55.797 para 57.144 alunos.

O levantamento foi realizado pelo LIBERAL com base em estatísticas compiladas pelo Censo Escolar, coordenado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), e considera escolas dos municípios de Americana, Hortolândia, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré.

A Seduc-SP (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo), no entanto, contesta a leitura de queda acentuada. De acordo com a pasta, houve uma mudança metodológica na forma de contabilização das matrículas a partir de 2025, o que inviabiliza a comparação direta com o ano anterior. Até 2024, um mesmo estudante podia ter mais de uma matrícula registrada, caso estivesse vinculado a diferentes modalidades ou itinerários. Com a adequação, passou a ser considerada apenas uma matrícula por aluno.

Com base em dados da SED (Secretaria Escolar Digital), a Seduc aponta que o total de estudantes na rede estadual na região passou de 75,6 mil em 2024 para 73,3 mil em 2025, uma variação de cerca de 3%. “A pasta acompanha continuamente os dados e destaca que variações podem ocorrer em função da dinâmica demográfica e de fluxos entre redes, mantendo a oferta de vagas conforme a demanda”, informou, em nota.

Para a presidente do Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo), Marlene Schneider, há uma recuperação gradual do setor após perdas significativas durante a pandemia. “A escola particular, da noite para o dia, perdeu cerca de 1 milhão de alunos com o fechamento total das atividades presenciais. Isso exigiu investimentos em tecnologia, plataformas e novas formas de ensino”, afirma.

Segundo ela, esse processo também impulsionou a modernização das instituições, com melhorias na comunicação com as famílias, acolhimento e qualidade do ensino, fatores que podem ter contribuído para a retomada das matrículas. Dados nacionais da Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares) reforçam essa tendência, com crescimento de 11% em 2022, 4,7% em 2023 e 1% em 2024, após a queda registrada durante a pandemia.

Para a professora Ana Lúcia Meneghel, doutora em Psicologia da Educação pela Unicamp, o movimento simultâneo de queda na rede pública e avanço no ensino privado deve ser analisado a partir de múltiplos fatores. Entre eles, estão mudanças demográficas, como a redução da taxa de natalidade, além de percepções das famílias em relação à qualidade do ensino. “Em contextos de instabilidade ou percepção de perda de qualidade da escola pública, famílias com alguma margem financeira tendem a migrar para o ensino privado, muitas vezes em busca de maior acompanhamento ou segurança”, explica.

Ela também destaca os impactos persistentes da pandemia, como aumento da evasão escolar e defasagens na aprendizagem, especialmente na rede pública. “Há evidências de que a recuperação ainda é incompleta, com aumento das desigualdades educacionais e dificuldades em áreas como alfabetização”, afirma. O avanço do ensino privado e a possível redução relativa da rede pública acendem um alerta sobre os impactos no acesso e na qualidade da educação. Embora estudantes de escolas particulares apresentem, em média, melhor desempenho, a escola pública segue sendo responsável pela formação da maior parte dos alunos no país.

Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2022 reforçam esse cenário: alunos da rede privada alcançaram média de 456 pontos em matemática, acima da média nacional, de 379 pontos, mas ainda abaixo dos 472 pontos registrados pelos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O resultado evidencia que, apesar da diferença entre redes, o Brasil como um todo ainda enfrenta desafios na aprendizagem.

Segundo a professora Ana Lúcia Meneghel, doutora em Psicologia da Educação, a tendência pode ampliar desigualdades educacionais ao concentrar oportunidades distintas entre grupos sociais. “A escola pública é fundamental para garantir o direito à educação, especialmente para populações mais vulneráveis. Seu enfraquecimento pode agravar desigualdades já existentes”, pontua.

Ela ressalta que fatores como clima escolar, segurança e condições de ensino são determinantes para a aprendizagem, mais do que a rede em si. Além disso, os efeitos da pandemia ainda são sentidos, com aumento das desigualdades educacionais - que passaram de cerca de 9,6 para 14,1 pontos percentuais - e uma parcela significativa de crianças ainda sem alfabetização adequada.

Para a especialista, o cenário reforça a necessidade de fortalecimento da escola pública. “Mais do que comparar redes, é fundamental investir em condições adequadas de ensino, aprendizagem e permanência, garantindo equidade e qualidade para todos”, conclui.

Veja o número de matrículas na região:

Rede estadual

Município —2024— 2025

- Americana —24.925 —19.868

- Hortolândia —27.039 —19.405

- Nova Odessa —6.055 —4.863

- Santa Bárbara —19.704 —14.820

- Sumaré —30.400 —23.083

- Região —108.123 —82.039

Rede privada

Município —2024 —2025

- Americana —20.261 —20.573

- Hortolândia —13.277 —13.585

- Nova Odessa —2.408 —2.491

- Santa Bárbara —7.342 —7.059

- Sumaré —12.509 —13.436

- Região —55.797 —57.144

(Fonte: O Liberal)



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