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Escolas criam moedas para ensinar educação financeira e estimular alunos
"Girassóis", "Miguéis", "Patotas", "Xef Coins" e "Quilombos" circulam por escolas públicas brasileiras sem passar pelo Banco Central, mas permitindo que estudantes comprem livros, doces e até façam investimentos fictícios. Criadas como moedas pedagógicas para premiar notas, comportamento e até reciclagem, elas transformam conceitos abstratos de educação financeira em experiências concretas de consumo e planejamento. "A matemática deixa de ser uma disciplina considerada chata e vira experiência prática", afirma Adonias Guimarães, gestor da Escola Municipal Miguel Gomes de Lima, em Igarassu (PE), onde "Miguéis" virtuais são creditados como recompensa pela coleta de materiais recicláveis e pelos resultados acadêmicos. "Isso faz com que os estudantes se tornem multiplicadores do conhecimento na comunidade e dentro de casa, orientando os pais e desenvolvendo uma noção de planejamento a longo prazo”, completa. Conheça esse e outros exemplos de moedas em escolas pelo país. 'Girassóis' Na Escola Municipal João Silva, em Imperatriz (MA), a professora Janete dos Santos desenvolve um projeto inclusivo para alunos com autismo e paralisia cerebral que resultou na criação dos "Girassóis". Desenhada por um desses estudantes, a moeda foi batizada em referência ao cordão de girassol, símbolo adotado para identificar deficiências ocultas. A iniciativa surgiu em 2023, após a turma ter contato com jogos do IBS (Instituto Brasil Solidário), organização que promove educação financeira em escolas. Em um evento realizado mensalmente, as cédulas fictícias são utilizadas em supermercados, feiras e bazares organizados pelos próprios alunos para a compra de materiais escolares, frutas e lanches. Na visão de Janete, a iniciativa fortalece a autoestima das crianças. "Ali não tem autista, ali não tem pessoa com paralisia cerebral. É um universo único, o universo do conhecimento. Esse é o momento de maior protagonismo deles." ‘Miguéis' Desde 2022, alunos do 6º ao 9º ano da Escola Municipal Miguel Gomes de Lima, em Igarassu, na região metropolitana do Recife, recebem "Miguéis", uma moeda virtual fictícia, como reconhecimento pelo desempenho acadêmico. Inspirado na estrutura do Banco Central, o projeto tem governança liderada pelos próprios estudantes, que se dividem em áreas como marketing, finanças, logística e reciclagem. São eles que administram a circulação da moeda e definem anualmente alterações no seu valor, exercitando seus conhecimentos matemáticos. A escola também mantém parceria com uma empresa de coleta seletiva. Assim, materiais recicláveis levados pelos alunos, como garrafas PET, alumínio e vidro, são pesados e convertidos em "Miguéis" com base em uma tabela pré-estabelecida. Uma vez por semana, a instituição organiza um mercado interno onde os participantes podem utilizar os saldos acumulados para adquirir itens de papelaria e guloseimas. "Acontece de alguns alunos escolherem não ir ao mercado toda semana para juntar ‘Miguéis’ e depois comprar itens mais caros, como livros. Essa visão de futuro é um dos aspectos trabalhados pelo projeto", explica Adonias Guimarães. Segundo ele, a iniciativa também gera impactos no comportamento, uma vez que alunos que não seguem as regras podem perder créditos. 'Patotas' A moeda "Patota" foi criada na Escola Municipal Patotinha, em Catalão (GO), para combater a alta taxa de faltas escolares. Impressas em papel e plastificadas, as cédulas são distribuídas conforme o desempenho e o comportamento dos alunos: notas acima de 80 rendem R$ 10, bom comportamento em sala vale R$ 2, e a realização das tarefas de casa garante R$ 3. A diretora da instituição, Jesuina Evangelista, explica como o dinheiro fictício tem incentivado a frequência de alunos do 1º ao 5º ano. "Antes do projeto, havia um grave problema de faltas. Hoje, as moedas são distribuídas em dias aleatórios, definidos pelos professores. Como os estudantes não sabem quando a entrega acontecerá, eles evitam perder aulas." Ela atribui a mudança ao interesse das crianças em acumular moedas para uma feirinha realizada no fim do ano. Durante esse evento, é possível trocá-las por frutas, bolo no pote, pipoca, algodão doce e itens mais caros, como kits de material escolar. Além disso, o projeto é integrado ao currículo, possibilitando que professores utilizem a moeda para ensinar operações como divisão e soma, ajudando os pequenos a gerirem seus próprios ganhos. 'Xef Coin' No Centro de Ensino Fundamental 03 de Planaltina, no Distrito Federal, o "Xef Coin", moeda virtual paralela ao real, é distribuída com base nas notas dos alunos. Cada ponto em uma disciplina equivale a uma moeda, enquanto matérias com maiores índices de reprovação, como matemática e língua portuguesa, rendem duas por ponto. O sistema também prevê penalidades. Para cada disciplina em recuperação, 25% do saldo fica bloqueado. Quem termina o bimestre com recuperação em quatro ou mais matérias perde acesso aos ganhos acumulados no período. Levantamentos realizados pela escola apontam que mais de 50% dos participantes conseguiram recuperar suas notas após a implementação do projeto. Atualmente, a iniciativa passa por uma reformulação para atender especificamente estudantes com defasagem entre idade e série. "Nessa pesquisa, olhamos os boletins e percebemos que alunos que ficavam com três ou quatro recuperações, por exemplo, passaram a ter apenas uma ou, em muitos casos, nenhuma", relata o professor Raphael Fernandes, idealizador da iniciativa. Os créditos podem ser usados em uma loja interna, que vende doces (os itens mais procurados, segundo Raphael), além de brinquedos e materiais escolares. O projeto se mantém por meio de campanhas internas de arrecadação e da venda de materiais recicláveis gerados pela escola, como papel, plástico e latinhas, comercializados com cooperativas para abastecer o caixa. 'Quilombos' A moeda "Quilombo" foi desenvolvida no Colégio Estadual Quilombola Boa Nova, em Professor Jamil (GO), para ensinar educação financeira a alunos do 5º ao 9º ano. Atualmente, o projeto funciona por meio de um aplicativo de banco digital desenvolvido pelos próprios estudantes com auxílio de inteligência artificial. A distribuição da moeda digital combina desempenho acadêmico e práticas sustentáveis. Ao mesmo tempo em que as notas são convertidas em valores (uma média final de 9,5, por exemplo, rende 9.500 Quilombos), os participantes também podem acumular créditos ao entregar materiais recicláveis, como papelão, pilhas e óleo de cozinha usado, que são encaminhados a cooperativas de coleta. Um dos diferenciais da iniciativa é a simulação de investimentos no aplicativo. Dessa forma, estudantes têm contato com conceitos como CDB e CDI e podem até adquirir criptomoedas fictícias para acompanhar, na prática, as oscilações do mercado. O projeto reproduz a estrutura de um Banco Central administrado pelos próprios alunos. Eles participam da definição de preços, realizam cálculos de impostos e ajudam a gerir a circulação da moeda. Além disso, os Quilombos são utilizados em eventos e feiras internos, mas a instituição tem planos de ir além. "Nossa ideia é apresentar um projeto ao poder público para criar incentivos fiscais destinados a comerciantes parceiros, permitindo descontos em compras reais feitas pelas famílias dos estudantes", explica o professor Wesley Fernando. (Fonte: Folha de São Paulo)
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