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POLÊMICAS DO ENEM ABALAM CONFIANÇA DE ESTUDANTES PARA A PROVA DESTE ANO
A menos de 100 dias do Enem 2026, polêmicas e mudanças da última edição ainda preocupam parte dos estudantes em preparação. A prova passou por uma sequência de episódios que abalou os vestibulandos, com escolas e cursinhos precisando conter o impacto para manter a rotina de estudos. Os três principais episódios que geraram discussão entre os estudantes e nas redes sociais foram a possibilidade de usar as três últimas notas do exame no Sisu, que elevou a concorrência; a correção da redação, na qual especialistas identificaram sinais de maior rigor; e o caso Edcley, em que um estudante de medicina antecipou em vídeos três questões semelhantes às aplicadas na prova, posteriormente anuladas. O impacto desses acontecimentos nos alunos variou ao longo do ano e conforme o perfil dos estudantes. Para educadores de cursinhos e escolas ouvidos pela reportagem, o Enem segue como a principal porta de entrada para as universidades, e, por isso, qualquer mudança ou rumor tende a gerar ansiedade. A Folha conversou com profissionais e estudantes de escolas e cursinhos sobre como os episódios recentes têm impactado a preparação para este ciclo. Alyson da Silva, 17, estudante do 3º ano do ensino médio no cursinho popular da FVG, afirma que os episódios afetam sim a confiança dele e de seu círculo de amigos no exame. Morador da Vila Carmosina, na zona leste de São Paulo, ele se prepara para tentar uma vaga no curso de administração de empresas. O coordenador do cursinho, Gabriel Moreira, diz que o Enemtem se transformado em um obstáculo cada vez mais complexo. Ele cita a correção da redação como um dos principais pontos de desconfiança. "Eles [alunos] notaram o crescimento de uma banca de correção mais rígida e criteriosa." Na edição passada, apenas dez estudantes do país alcançaram a nota máxima na prova. Após a divulgação dos resultados, em janeiro, o Inep afirmou à Folha que não houve alteração nos critérios de correção da redação. O caso Edcley também teria gerado desconfiança entre os estudantes, assim como o uso de notas anteriores no Sisu, visto por eles como desvantajoso. Além disso, o coordenador cita uma sensação ruim dos alunos com a metodologia de correção do Enem, a TRI (Teoria de Resposta ao Item), em que o resultado não corresponde exatamente ao número de acertos. Mesmo assim, diz o coordenador, prevalece a percepção de que "não há para onde fugir". "Como o Enem continua sendo o principal meio de acesso, a estratégia é manter o foco e algum grau de confiança no processo", afirma. O receio dos estudantes pode não estar ancorado na realidade. De acordo com o MEC, apesar da permissão para uso de notas de outros anos, 76% dos matriculados no Sisu (seleção para universidades federais) usaram notas obtidas no Enem 2025. No curso de medicina, esse percentual chegou a 90,5%. Ex-presidente do Inep, órgão responsável pelo exame, Reynaldo Fernandes avalia que episódios como o caso Edcley têm grande repercussão, mas impacto "praticamente zero" nas chances dos candidatos. Fernandes também defende o sistema de correção por TRI como uma ferramenta cientificamente superior à contagem simples de acertos para medir conhecimento. Ele compara a desconfiança dos estudantes na metodologia à negação da eficácia de vacinas, classificando-a como uma "crise de credibilidade científica". Fernandes afirma que para alunos de elite, as crises são "contornáveis". Para alunos de cursinhos populares, o Enem é visto como a "única chance", o que faz com que qualquer instabilidade gere um impacto emocional muito maior. Por isso, ele defende que o Enem deveria migrar para o modelo do SAT (EUA) ou Toefl, permitindo que o aluno faça a prova mais de uma vez ou em datas diferentes. Procurado pela Folha, o Inep afirmou ainda que todas as etapas do exame, da inscrição à aplicação das provas, seguem critérios técnicos previamente definidos e rigorosos. O órgão destacou que o Enem 2026 registrou 5.055.818 inscritos confirmados – número impulsionado pela inscrição automática de alunos do 3º ano da rede pública. Na Rede Ubuntu, que reúne cursinhos populares na zona sul de São Paulo, educadores relatam desânimo e queda de confiança, mas associam o quadro a fatores estruturais, como defasagem de aprendizagem após a reforma do ensino médio. Na rede privada, a Folha ouviu representantes de Anglo, Poliedro, Gama Pré-Vestibular, Bernoulli, Oficina do Estudante, pH e SEB Lafaiete. Segundo as instituições, os episódios até causaram certa ansiedade entre os alunos, mas a comunicação constante e o atendimento pedagógico têm ajudado a reduzir o impacto do que chamam de "ruído externo" das polêmicas. "A escola precisa, sem sombra de dúvidas, dar atenção a essas mudanças", diz o diretor do Colégio Anglo São Paulo, Vinicius de Paula. Para ele, nas escolas de alta performance, o efeito é menor, já que os alunos treinam para o Enem desde o 1º ano do ensino médio. Apesar disso, a correção da redação e o uso de notas antigas no Sisuforam citados por algumas instituições particulares como o principal ponto de desconfiança dos alunos. Para o diretor da Gama Pré-Vestibular, Paulo Scherrer, a correção da redação é o tema mais recorrente nas dúvidas, enquanto o caso Edcley é visto como episódio pontual. No Poliedro, a coordenadora pedagógica Fabiana Vascon relata ansiedade maior no início do ano. Segundo ela, casos de redações com notas consideradas incoerentes e reavaliações com grandes variações levaram alunos a questionar a transparência dos critérios. A escola passou a promover palestras para explicar o modelo de correção, incluindo a TRI. Entre estudantes, há relatos de mudança de estratégia. João de Camargo, 20, da Oficina do Estudante, afirma que manteve o Enem nos planos, mas passou a priorizar também vestibulares próprios. Miguel Sarubo, 21, do mesmo cursinho, diz temer focar em outras provas e "ficar sem opção". "É desanimador", afirma. (Fonte: Folha de São Paulo)
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