Baixa visão ou audição afetam aprendizagem de um a cada dez alunos

Dois pesquisadores da Universidade de Stanford, nos EUA, descobriram que um a cada dez alunos brasileiros sofre com “deficiências invisíveis” — como enxergar ou escutar mal — que prejudicam severamente sua aprendizagem. Um dos responsáveis pelo estudo, Guilherme Lichand diz que testes com alunos no final do ensino fundamental mostram que pelo menos um terço de quem está no 9º ano aprendeu o mesmo que crianças que estão entre o 1º e o 3º. Segundo ele, boa parte desse problema se explica por essas desvantagens físicas.

“Isso significa que as escolas podem adotar todas as medidas pedagógicas adequadas para as crianças e garantir professores especializados que, se ninguém perceber as deficiências invisíveis e se não endereçar a solução para os serviços de saúde, para garantirem óculos e aparelhos auditivos, os alunos vão continuar ficando para trás”, afirma Lichand, que apresentou os dados há duas semanas, no Seminário Internacional de Anos Finais Integrais-Redes que Transformam, da ONG Motriz

O Censo Escolar, do Ministério da Educação (MEC), aponta que em 2025 havia 2,4 milhões de estudantes com alguma deficiência — número 153% maior que em 2016. Desse grupo, 95% são crianças e adolescentes com deficiência intelectual (43% do total) ou autismo (52%). Há ainda matriculados surdos, cegos, com altas habilidades, entre outras. No entanto, de acordo com Lichand, o número de casos de baixa visão, deficiência auditiva ou problemas motores é subestimado nos registros. Por isso, chamou de “deficiências invisíveis”.

De acordo com ele, um em cada dez alunos brasileiros tem algum tipo de deficiência que não é percebida ou registrada pela escola, o que significaria cerca de 2,7 milhões de pessoas. Enquanto isso, o Censo contabiliza apenas 91 mil com baixa visão, 41 mil com deficiência auditiva e 170 mil com outras deficiências físicas. Juntos, eles chegam a apenas 0,01% dos alunos do país. “Se a gente não quiser ninguém ficando para trás mesmo, as escolas precisam encontrar melhores mecanismos para diagnosticar e apoiar os alunos. Não é possível que as escolas no Brasil não façam exames de vista e de audição todos os anos”, diz.

A pesquisa dos professores Elizabeth Kozleski e Guilherme Lichand foi feita pela Escola de Educação da Universidade de Stanford via Instituto Equidade.info, que se dedica a coletar dados educacionais brasileiros. Ela aponta que a metade dos estudantes com deficiência invisível são alunos que enxergam mal e não usam óculos. Os outros são crianças que escutam mal e precisam de aparelhos auditivos, crianças com problemas motores que tornam difícil segurar o lápis e outras com deficiências similares.

Para chegar a essas informações, o instituto selecionou 250 escolas brasileiras, que formaram uma amostra representativa de todo o ensino básico do país. “Outro impacto significativo é o aumento do abandono escolar. Estudantes que não recebem o apoio necessário para suas necessidades específicas podem se sentir desmotivados e desengajados, levando ao abandono precoce da escola”, reforça Lichand.

Aprendizagem

Depois da descoberta, Lichand analisou um programa de recuperação de aprendizagem da rede estadual de São Paulo, do qual foi um dos avaliadores, para avaliar se a proporção de crianças com deficiências invisíveis era maior entre esse grupo que não aprendeu o que deveria.

De acordo com ele, os dados do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) apontam que, de todos os alunos do final do ensino fundamental, um terço tem aprendizagem adequada ou avançada; um terço tem pequenas defasagens (de uma ou duas séries abaixo do esperado) e outro terço tem problemas extremos.

“Eles descobriram que boa parte dos alunos do último grupo, alvo de um programa do estado, ficaram presos ainda no 2º ano do ensino fundamental. São sete anos de defasagem educacional. E o resultado de São Paulo, na minha avaliação, pode ser expandido de alguma maneira como um retrato do país”, afirmou o especialista.

O professor de Stanford afirma que, mesmo após a rede estadual de São Paulo ter colocado em prática uma série de medidas pedagógicas eficientes — como avaliação adequada e ensino adaptado às deficiências apresentadas —, só uma parte dos adolescentes conseguiu apresentar algum nível de recuperação do que não aprendeu na idade adequada.

Eles descobriram, então, que quatro em cada dez alunos que estavam nessas turmas voltadas à recuperação de aprendizagem sofriam com deficiências invisíveis — um número quatro vezes maior do que a prevalência desses estudantes nas escolas. Isso significa que ter uma condição dessas despercebida pela família ou pela escola aumenta o risco de não aprender nem mesmo quando há um trabalho com esse único objetivo. “Se você tem muita dificuldade de enxergar o caderno ou lousa mesmo sentado perto, você não aprende. Se você não escuta bem ou não consegue segurar direito o lápis, também não”, diz.

De acordo com a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, o programa de recomposição, chamado Professor Tutor-Anos Finais, atua na recomposição de aprendizagens em Língua Portuguesa e Matemática, identificadas por meio de avaliação diagnóstica de toda a rede. A pasta afirma que a promoção de políticas públicas inclusivas da educação especial faz parte de suas prioridades e que mantém o projeto “Olhar o Futuro”, que faz triagem oftalmológica e entrega gratuita de óculos a alunos.

Já o MEC informou que, “historicamente, atua para que as necessidades específicas dos estudantes sejam identificadas e atendidas, garantindo a equidade no ambiente escolar”. O ministério citou a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, instituída em 2025 para dar apoio educacional à escolarização de estudantes com deficiência, autismo e altas habilidades ou superdotação. “Quanto ao diagnóstico de deficiências sensoriais (visuais e auditivas), o MEC atua em estreita coordenação com o Ministério da Saúde por meio do Programa Saúde na Escola (PSE)”.

(Fonte: O Globo)



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